Dia dos Pais católico: São José como modelo de pai de família
Você sabia que o Dia dos Pais católico começou de um jeito bem diferente do que a gente imagina hoje, entre cartão comprado às pressas e gravata que ninguém vai usar? Neste ano, o segundo domingo de agosto cai em 9 de agosto — e vale a pena chegar até lá sabendo de onde essa data realmente veio, e por quem a Igreja pede que a gente olhe quando pensa no pai de família.
Aqui em casa o ritual de todo ano é o mesmo: os filhos escondem os presentes feitos na escola, preparam um café da manhã para levar na cama, e deixam aquela bagunça boa na cozinha. O pai finge surpresa mesmo sabendo do script há muito tempo. É ritual da família, e é o bastante.
De onde vem o Dia dos Pais católico no Brasil
A data não nasceu de uma tradição antiga nem de um decreto de governo. Em 1953, o publicitário Sylvio Bhering, então diretor do jornal O Globo e da Rádio Globo, no Rio de Janeiro, lançou a ideia de um “Dia do Papai” para o Brasil — nos mesmos moldes do Dia das Mães, que já vinha fazendo sucesso em maio. A primeira comemoração aconteceu em 16 de agosto daquele ano, e a manchete do jornal no dia anterior anunciava, sem meias palavras: “Pela primeira vez se celebrará amanhã o Dia do Papai”.
A escolha do dia 16 não foi por acaso. Até a reforma do calendário litúrgico depois do Concílio Vaticano II, era nesse dia que a Igreja celebrava São Joaquim, pai de Nossa Senhora e avô de Jesus — considerado, na devoção popular, o patriarca da família. Só em 1969 a festa de Joaquim passou a ser celebrada junto com a de Sant’Ana, em 26 de julho, como já contamos por aqui na novena que a gente reza pelos avós. Com o tempo, o Dia do Papai virou data móvel, fixada no segundo domingo de agosto para espelhar o Dia das Mães — e a memória do santo que inspirou a data foi ficando para trás, enquanto o comércio foi ficando na frente.
Por que olhar para São José, então
Se a origem histórica remete a São Joaquim, a Igreja sempre teve um outro nome como padroeiro específico dos pais de família: São José. O beato Papa Pio IX o declarou Patrono da Igreja Universal em 8 de dezembro de 1870, e o Papa Francisco, para marcar os 150 anos dessa declaração, escreveu em 2020 a carta apostólica Patris corde — “com coração de pai”. Não é uma devoção de nicho nem uma escolha nossa aqui do site: é o santo que a própria Igreja aponta como modelo, sempre que o assunto é paternidade.
José não teve palavra registrada nos Evangelhos. Nenhuma frase sua chegou até nós — só gestos. E talvez seja exatamente por isso que ele fale tanto a um pai de verdade, que também costuma amar mais com as mãos do que com discursos: o café que ele mesmo esquenta no domingo de manhã, o pneu trocado sem reclamar, a luz que ele apaga por último antes de dormir.
Sete retratos de um pai, segundo o Papa Francisco
Em Patris corde, Francisco resume José em sete traços: pai amado, pai na ternura, pai na obediência, pai no acolhimento, pai com coragem criativa, pai trabalhador e pai na sombra. Dois deles merecem demora.
Sobre a ternura, o Papa lembra que “Jesus viu a ternura de Deus em José” — o mesmo tipo de ternura descrita no Salmo 103, a de um pai que se compadece dos filhos. Não é sentimento piegas. É a mão que segura firme quando a criança aprende a andar de bicicleta, sabendo que ela vai cair, e segurando mesmo assim.
Já o “pai na sombra” é talvez o retrato mais consolador para quem cria filhos sem manchete nem palco. José, escreve Francisco, é “a sombra na terra do Pai celeste: guarda-O, protege-O, segue os seus passos sem nunca se afastar d’Ele”. Pai de sombra é o que aparece pouco nas fotos porque é ele quem está segurando a câmera. É trabalho que ninguém aplaude e que sustenta a casa inteira.
O que os Evangelhos mostram, sem precisar de uma linha de José
Mateus conta que José, noivo de Maria, descobriu a gravidez antes do anjo explicar qualquer coisa — e já tinha decidido, em silêncio, não expô-la ao escândalo (Mt 1,19). Só depois veio o sonho, o anjo, a ordem de tomá-la como esposa. José aceitou uma história que não escolheu e que ninguém em Nazaré ia entender direito, e não discutiu.
Anos mais tarde, quando o menino Jesus ficou para trás em Jerusalém depois da festa da Páscoa, foi Maria quem falou ao encontrá-lo no templo — mas a frase é reveladora: “teu pai e eu, angustiados, te procurávamos” (Lc 2,48). Ninguém corrige a palavra “pai” ali. Um homem que não gerou o filho é chamado, com naturalidade, de pai — porque cuidar, buscar e angustiar-se por alguém é o que faz um pai ser pai, mais do que qualquer exame de sangue.
Depois desse episódio, os Evangelhos calam de novo, e por quase vinte anos José só aparece na oficina de Nazaré, ensinando o ofício a um filho que lhe obedecia todo santo dia. O Catecismo lembra que essa obediência diária de Jesus a José e Maria “foi o cumprimento perfeito do quarto mandamento” (CIC 532) — a santidade, no caso de José, não precisou de milagre nenhum para se manifestar. Precisou só de rotina sustentada por anos.
Ideias simples para celebrar em casa, sem gastar o salário
O Dia dos Pais não pede presente caro — pede atenção que dure mais do que uma tarde:
- Uma Missa em família, se a agenda permitir, com uma intenção específica pelo pai ou pelo esposo da casa.
- Uma carta escrita à mão pelos filhos, mesmo torta, mesmo com erro de português — ela vai parar na gaveta da mesinha de cabeceira e ficar lá por anos.
- O prato favorito dele, cozinhado por quem normalmente não cozinha naquela casa.
- Uma ligação (ou visita) ao próprio pai ou sogro, não só ao marido — o Dia dos Pais também é dia de honrar quem já criou o homem que você escolheu.
- Um momento de oração a São José pelo esposo, pedindo por ele o que José teve: firmeza sem dureza, silêncio sem ausência.
Se o seu pai já não está mais aqui, ou mora longe
Para muita mulher esse domingo dói mais do que celebra. O pai já faleceu, ou mora num outro estado, ou é uma ausência que a família aprendeu a não comentar. Nada disso te obriga a fingir uma alegria que não sente.
Rezar por quem se foi também é gesto de filha e de esposa, não só de saudade: a Igreja ensina que continuamos unidos aos que já morreram pela comunhão dos santos, e que a nossa oração ainda os alcança (CIC 958). Um terço oferecido em silêncio pelo pai ausente é, no fim, uma forma de continuar celebrando com ele — só que de outro jeito. Quem quiser retomar essa oração em casa encontra o passo a passo no nosso guia de como rezar o terço em família.
Uma oração pelo pai da sua casa
Se hoje à noite a casa permitir um minuto de silêncio antes de dormir, fica aqui uma sugestão simples, para rezar sozinha ou com os filhos ao lado da cama dele:
São José, que amaste sem exigir palco e obedeceste sem perder a coragem, olha pelo pai desta casa. Dá a ele força para os dias difíceis e ternura para os dias comuns. Ensina os filhos a chamá-lo de pai não só pelo nome, mas pela vida inteira que ele constrói, quieto, ao lado da gente. Amém.
Boa festa a todos os pais — os que erram, os que acertam calados, os que só sabem amar trocando um pneu ou esquentando o café.